
A noite em claro que passou não foi mais que um mero ponto nesse gráfico que é a vida, toda ela.
Os olhos raiados de sangue, o corpo cansado mas acordado, estimulado, acelerado.
A película de suor que envolve a epiderme, a saliva segregada em quantidades industriais.
Os vidros que distorcem a vista de quem olha para lá dos domínios do quarto, com o seu nevoeiro que se materializa em cascatas de gotículas de agua, escorrendo dramaticamente para o caixilho abaixo.
A cama desfeita, os lençóis desarranjados, o caos pelo chão do quarto.
Seria a descrição de uma grande noite recheada de amor e loucura, mas não, não tinha sido assim.
A busca incessante de mais, de melhor, de diferente, de maior.
Isso provocava a fúria intelectual e o delírio fantasista numa mente menos focada como aquela.
A dispersão de pensamentos por caminhos ainda inexplorados tinha despoletado o churrilho de ideias e geminado novas e interessantes possibilidades para o amanhã.
E a rotina parasitária em que andava a viver em nada contribuía para o seu maior descanso.
De repente, subitamente, eis que um raio rasga a direito por entre os tectos dos prédios em frente e choca a direito com os seus olhos.
Faiscam, dilatam-se pupilas, desfocam-se visões, tremem joelhos.
Exausto.
Era a luz da manhã que chegava.
Pensou em algo que lhe haviam pedido.
Haveriam novidades?
Mais a Leste alguém saberia responder.
Mas agora nada havia a fazer.
A luz deslocara-se para os seus lábios.
Falou.
Um nome..
A voz saiu-lhe rouca e arrastada, cordas vocais coladas e caramelizadas.
Era a luz da manhã que subia.
Mãos na cabeça, o corpo nu agora a sentir o calor que era emanado por aquele feixe laranja.
Olhos fechados, chega de pensar, chega de ideias.
A rendição de um corpo, de um homem ao cansaço.
Era chegada a hora, de então dormir!
Dormir, na cama cair, e em sonhos sorrir.
Era a luz da manhã que luzia!
Era um homem cansado que sorria, e uma mulher longínqua que sofria.
Era a luz da manhã que chegava, uma bênção disfarçada, uma vida amada!
"Come the morning light.."